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História muito importante e totalmente desconhecida
Carretera Panamericana
A aventura desconhecida de três brasileiros pelas Américas
Luciana Garbin


      Henry Ford já era um dos homens mais ricos e famosos do mundo quando, em junho de 1937, fez uma proposta a Leônidas Borges de Oliveira, um paulista de Descalvado, tenente do Exército brasileiro. O pioneiro da indústria automobilística queria guardar em seu museu em Detroit os dois carros da Ford que haviam transportado até os Estados Unidos não só Oliveira como também o observador Francisco Lopes da Cruz e o mecânico Giuseppe Mário Fava. E pagaria por eles o valor que fosse.
      Oliveira, porém, se mostrou irredutível. Era seu dever, como comandante da Expedição Automobilística Brasileira para Estrada Pan-Americana – ou Carretera Panamericana, como se diz em espanhol –, trazer de volta os dois veículos modelo T que haviam desbravado 27.631 km de estradas, picadas, matas, rios e riachos de 15 países nas três Américas, incluindo partes dos Andes e da Amazônia.
      A aventura começara mais de nove anos antes, em 16 de abril de 1928, quando o trio partiu do Rio de Janeiro rumo aos EUA. Oliveira era o chefe da expedição, Lopes da Cruz, o responsável pelos equipamentos de navegação e Fava, o responsável pelo funcionamento dos dois Fords, batizados de Brasil e São Paulo.
      Imbuídos do ideal do Pan-Americanismo, em voga na época, e estimulados pela política do então presidente Washington Luís, cujo lema era “Governar é abrir estradas”, os três conquistadores tinham como missão descobrir, projetar e abrir a rota onde futuramente seria construída uma rodovia interligando as Américas. “Nenhum dos três tinha noção da distância e das dificuldades que enfrentariam, mas acabaram fazendo o maior projeto de engenharia do século 20”, resume José Roberto Faraco Braga, o Beto Braga, que lançou em 2011 o livro O Brasil Através das Três Américas (Canal 6 Projetos Editorais).
      Boa parte do caminho foi aberta a pás, picaretas e bananas de dinamite. Oliveira saiu do Brasil com cartas de recomendação do ministro das Relações Exteriores, Octávio Mangabeira, e do embaixador americano Edwin Morgan. Ao chegar a um novo país, o trio costumava ir até o quartel local recrutar mão de obra. Militares, policiais e civis ajudaram a abrir caminhos. “Em alguns locais foram formados verdadeiros batalhões”, conta Braga. Trilhas incas e rotas de colonizadores espanhóis eram anexadas ao traçado.
      Pelos 15 países por onde passaram, os expedicionários foram tratados como visitas ilustres e recebidos por multidões. Jornais costumavam avisar de sua chegada com antecedência e apregoavam com entusiasmo o progresso que a rodovia poderia trazer. Com isso, o trio – que entre uma cidade e outra enfrentava de frio a acidentes, de mosquitos a ataques de onça, de doenças a falta de combustível – adotava por alguns dias roupa social, charutos e pose de celebridade em coquetéis e jantares oferecidos por autoridades. Neles, muitas vezes também recebiam dinheiro, ajuda para manutenção do carro e serviços de correio, telégrafo e confecção de mapas.
      Em Washington, ponto final da expedição, Oliveira, Fava e Lopes da Cruz foram recebidos por Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA, a quem apresentaram um plano para viabilizar financeiramente a estrada. A foto do encontro na Casa Branca pode ser acessada no site da biblioteca do Congresso americano (www.loc.gov).
      Os brasileiros também se reuniram e posaram para fotos com os ministros Cordel Hull (Estado), Harry Woodring (Defesa) e várias outras autoridades. Em Cleveland, a autorização para dirigir foi assinada pelo “intocável” Eliot Ness, o agente que perseguiu o mafioso Al Capone.
      Após quase dois anos nos EUA, os três embarcaram em Nova York de volta para o Rio de Janeiro com os dois Ford T. Chegaram 20 dias depois, em 25 de maio de 1938. Então ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha os levou para encontro com Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Os expedicionários deram ao chefe do Estado Novo cópia do projeto da estrada e receberam uma homenagem: ruas do Rio de Janeiro ganharam o nome da terra natal de cada um deles. Em Olaria, fica a Rua Bariri. No número 251, funciona o estádio do Olaria Atlético Clube. Em Madureira, está a Travessa Descalvado e, no bairro de Praça Seca, a Rua Florianópolis. Muitas décadas depois, em 2010, Oliveira virou nome de rua em Descalvado; em 2014, foi a vez de Lopes da Cruz batizar via de Mogi das Cruzes, onde viveu e morreu.
      Em São Paulo, os expedicionários foram tema de reportagens e receberam convites para contar suas aventuras em entidades, como a Faculdade de Medicina e o Automóvel Club. Com o passar dos meses, no entanto, a empolgação causada pela expedição foi perdendo força e os expedicionários tiveram de encarar uma nova vida. Por indicação do marechal Cândido Rondon, Oliveira foi nomeado cônsul privativo do Brasil na Bolívia, cargo que ocupou por mais de 20 anos, até morrer, em 1965. Braga conta que o projeto do tenente, na verdade, era conseguir um trabalho no México, onde esperava dar início à construção da estrada. Já Lopes da Cruz e Fava rumaram para trabalhos no interior do País.


HISTÓRIA FOI REDESCOBERTA NO HOSPITAL

      O empresário e escritor Beto Braga descobriu a aventura da Estrada Pan-Americana em 1998, num hospital de Santa Cruz de la Sierra, cidade boliviana onde morava na época. Um de seus filhos havia machucado o braço e ele acompanhava a sutura do ferimento quando o médico comentou que o pai dele havia viajado de Ford T do Brasil aos EUA em 1928. “Eu contestei, disse que nem estrada existia na época. Não teria como chegar até lá passando por cordilheira, pântano, sem posto de gasolina, loja de autopeça”, diverte-se Braga. “Mas ele insistiu, falou que estava tudo num diário.”
      No dia seguinte, o médico Erland de Oliveira Gonzales lhe mostrou as anotações de viagem feitas por Leônidas Borges de Oliveira até o México. “Para minha surpresa, não só era verdade, como era a história do projeto da Carretera Panamericana”, lembra o escritor. Desde então, ele nunca mais a abandonou. “Não me conformei em tudo isso ter sido esquecido. Está nos jornais e arquivos nacionais de todos os países da América.”
      Após se embrenhar na leitura do diário, Braga passou a procurar pistas dos outros dois expedicionários. Em março de 1998, encontrou o mecânico Mario Fava com 91 anos. Lúcido e bem-humorado, ele lhe cedeu vários documentos e fotos da viagem e contou que, quando era menino em Bariri (SP), tinha em casa uma revista que falava dos EUA e de Thomas Edison. Isso despertou seu interesse pelo país. Aos 21 anos, ao saber da viagem até Nova York, pegou ferramentas e algumas peças de roupa e se juntou à expedição.
      Para Braga, Fava foi o herói da expedição. Chamado de “intrépido mecânico”, ele muitas vezes usou do improviso para fazer os dois Fords T funcionarem. Na falta de óleo, derretia gordura de porco selvagem para lubrificar motores e engrenagens. Sem gasolina, usou como combustível uma mistura de querosene de iluminação pública com chicha – aguardente de milho produzida por indígenas.
      Gonzales também se encontrou com o expedicionário. “Foi muito emocionante. Lembro de ter perguntado: ‘Seu Mario, como era meu pai?’ Ele respondeu: ‘Olha, seu pai foi um grande homem, um grande companheiro, porém um doido de pedra, porque só um maluco faria o que ele fez’.”
      Com os documentos de Fava nas mãos, Beto Braga intensificou as pesquisas em jornais da época e na internet. “O livro foi a maneira que encontrei para resgatar essa página perdida na história das Américas. Propor ir de carro do Rio a Nova York naquela época era como falar em ir para a Lua de bicicleta.”


EXÉRCITO CONDECORA CHEFE DA EXPEDIÇÃO

Medalha póstuma do Mérito Militar foi entregue na quarta-feira a filho de Oliveira

      Na quarta-feira, o Exército concedeu, a título póstumo, a Medalha da Ordem do Mérito Militar ao tenente-coronel Leônidas Borges de Oliveira, no grau de Oficial. O anúncio da condecoração – destinada a cidadãos e instituições que tenham prestado serviços relevantes – foi publicado em 16 de dezembro no Diário Oficial da União, como um decreto do presidente Michel Temer.
      No texto, Oliveira é apresentado como chefe da Expedição Brasileira da Estrada Pan-Americana e cônsul privativo do Brasil na Bolívia. O filho dele, Erland de Oliveira Gonzales, recebeu a medalha na semana passada em Brasília, em cerimônia que teve a participação do próprio Temer, dos comandantes das Forças Armadas e do juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na 1.ª instância, também condecorado. “Foi uma emoção muito grande ver o nome do meu pai ser reconhecido depois de tanto tempo”, afirma Gonzales.
      O pedido da mais importante medalha do Exército para Oliveira havia sido feito meses antes pelo escritor e empresário Beto Braga. “A memória desse feito grandioso precisa ser resgatada e recontada e o trabalho desses intrépidos aventureiros, reconhecido. Eles precisam ser colocados entre os homens que fizeram história no século 20”, diz, empolgado.“ Se fossem americanos, teriam uma estátua em cada cidade.”

Acervo. O escritor planeja doar o acervo que reuniu sobre a expedição para alguma instituição. “Tenho muitos documentos, muitos objetos, muitas fotos, e sempre digo que isso não é meu, é do Brasil. Mas ainda não achei o lugar certo para essa doação”, lamenta. Segundo Braga, historiadores vinculados a universidades de países americanos têm feito pesquisas sobre a criação da Estrada Pan-Americana e já há projetos até de erguer monumentos em homenagem aos brasileiros. Na Costa Rica, por exemplo, existe a ideia de criar uma estátua em homenagem aos expedicionários na capital, San José, desenhada pelo escultor Ángel Lara.


OS EXPEDICIONÁRIOS

      - Nascido em 25 de abril de 1903 em Descalvado (SP), Leônidas Borges de Oliveira descobriu os ideais do Pan-Americanismo em 1925, quando era primeiro-tenente do Exército. Após a viagem, foi nomeado cônsul privativo do Brasil na Bolívia e lá ficou por mais de 20 anos, até morrer, em 31 de março de 1965, aos 61 anos. Como era de seu desejo, seu corpo foi trazido para o Cemitério da Consolação, em São Paulo.

      - Nascido em Florianópolis em 2 de fevereiro de 1903, Francisco Lopes da Cruz era oficial da Aeronáutica e foi parar na expedição pelos conhecimentos de engenharia e navegação. De volta ao Brasil, passou por algumas empresas, como a Companhia de Serviços de Engenharia. Morreu em 24 de dezembro de 1966, um dia após ser atropelado enquanto fazia uma ronda como guarda-noturno em Mogi das Cruzes.

      - Filho de imigrantes italianos, Giuseppe Mário Fava nasceu em Bariri (SP) em 24 de janeiro de 1907. Entrou para a expedição aos 21 anos. Depois de voltar ao Brasil, acompanhou o engenheiro Bernardo Sayão na abertura da Estrada Belém-Brasília e na fundação de cidades em Goiás. Nos anos 1950, participou do início da terraplenagem de Brasília. Morreu no Rio de Janeiro em 10 de janeiro de 2000, durante uma visita a familiares.


DEZ ANOS DE VIAGEM

Prevista inicialmente como uma única rota, a Pan-Americana virou uma junção de vias construídas em diferentes épocas que cruza montanhas, planícies, florestas, desertos e áreas cobertas de neve. Liga o Alasca, nos EUA, a Ushuaia, no extremo argentino. Em vários países, a saga dos três expedicionários brasileiros foi o pontapé para a abertura da rota, mas há partes que repetem ainda hoje o cenário visto por Leônidas Borges de Oliveira, Mario Fava e Francisco Lopes da Cruz. Como um pântano na fronteira entre Colômbia e Panamá, onde não existe estrada.

1- BRASIL - Diante de uma pequena multidão, Leônidas de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Mario Fava partem em 16 de abril de 1928 da frente do jornal O Globo, no Rio, num Ford T 1918. Em São Paulo, ganham do Jornal do Comércio a caminhonete Ford T

2- PARAGUAI - Entram por Pedro Juan Caballero e enfrentam grande tempestade. Após dois meses na mata, chegam a Villa Rica com infecção e febre. Em Assunção, viram “hóspedes de honra”

3- ARGENTINA - “Hóspedes oficiais”, vivem três meses de tranquilidade. Em expansão econômica, o país já tem boas rodovias e mostra muito interesse na rodovia

4- BOLÍVIA - Deslumbram-se com a Cordilheira dos Andes e sua fauna. Sem combustível, abastecem os Fords T com querosene e chicha. Para o motor não ressecar, Fava usa banha de lhama e porco

5- PERU - Levam quatro meses para atravessar os Andes. Fava escapa de dois acidentes graves. Os companheiros têm enterite. O trio sobe a 5 mil metros de altitude e percorre 450 km de deserto de gelo

6- EQUADOR - Em Loja, participam como membros honorários do Congreso de Vialidad del Equador. Em Azuay, Mario Fava mais uma vez escapa de um acidente. Em Quito, são recebidos pelo presidente Isidro Cuev

7- COLÔMBIA - Passam quatro meses perdidos na selva. Debilitados, conseguem escapar da floresta e da malária com ajuda de índios. Perto de Cali, um dos Fords capota e quase esmaga Mario Fava. Em Bogotá, Medellín e outras cidades, são homenageados e recebidos como heróis

8- PANAMÁ - Entram no país com os dois Fords desmontados por causa do pântano. Em Colón, visitam o Canal do Panamá e encontram atletas brasileiros que seguiam para a Olimpíada de 1932, em Los Angeles

9- COSTA RICA - Ficam impressionados com as riquezas naturais do país. Em 30 de julho de 1933, se reúnem com o presidente Ricardo Oreamuno, que lhes dá ajuda financeira

10- NICARÁGUA - Ovacionados pela população, são declarados hóspedes oficiais. Em 19 de fevereiro de 1934, encontram Augusto Sandino. Dois dias depois, ele e os companheiros seriam fuzilados numa emboscada

11- HONDURAS - Em apenas oito dias, os três percorrem os 187 km do trecho hondurenho. Não passam pela capital, Tegucigalpa, que estava fora da rota, mas recebem apoio do presidente

12- EL SALVADOR - Com o traçado da Carretera Panamericana pronto no país, os expedicionários anexam aos estudos da futura rodovia projetos do engenheiro Manuel Harrison

13- GUATEMALA - Expedicionários se surpreendem com a beleza do país. Lá passam quase dois meses, anexam 504 km de estradas já prontas ao traçado e recebem grande apoio popular e de autoridades

14- MÉXICO - São recebidos como hóspedes de honra, com bailes e homenagens. De uma cidade e outra, porém, enfrentam vários perigos. Em San Jerônimo, Leônidas quase morre de infecção. Na Cordilheira de Oaxaca, o trajeto é aberto à força. Cruzam vários rios, às vezes em cima de balsas

15- EUA - Cidade após cidade, são recebidos como paladinos do progresso por representantes de indústrias, câmaras de comércio, universidades e autoridades. Em Detroit, se encontram com Henry Ford. Em Washington, são recebidos na Casa Branca por Franklin Roosevelt

16- VOLTA AO BRASIL - Desembarcam no Rio com os dois Ford T em 25 de maio de 1938. Dias depois, o trio é recebido no Palácio do Catete pelo presidente Getúlio Vargas, que manda batizar ruas da capital com o nome da cidade natal de cada expedicionário


100 ANOS DE EVOLUÇÃO

● O Ford T era um dos veículos mais modernos da época. Veja comparação com um carro atual de alta tecnologia



AUTOMÓVEL HISTÓRICO DESAPARECEU
Família diz que os dois carros foram dados ao Museu Paulista, que diz não ter achado registro de doação; um deles está em museu da zona norte

      Ninguém sabe como o protagonista de uma das mais espetaculares aventuras do automobilismo no século 20 foi parar no meio de bondes e ônibus antigos num galpão na zona norte de São Paulo. Fabricado em 1918, o Ford T batizado de Brasil pelos expedicionários está hoje guardado no Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla, antigo Museu da CMTC. Mantém a capota que ganhou durante a passagem pelo México e alguns dos decalques de automóveis-clube de cidades americanas, como os de Michigan, Illinois, Washington e Cleveland. Mas só tem a carcaça do motor, sem as peças para funcionar.
      Já do segundo Ford, batizado de São Paulo na expedição, não se sabe o destino. Moradores tradicionais do Ipiranga, como Laerte Losacco Toporcov, se lembram de que ele e o outro automóvel ficavam expostos num galpão externo nos fundos da instituição, perto do também histórico hidroavião Jahú.A última exposição pública dos dois teria sido em1954, na inauguração do Parque do Ibirapuera.“O mecânico Mário Fava me contou que eles foram colocados debaixo das asas do hidroavião”, afirma o escritor Beto Braga.
      Segundo o médico Erland de Oliveira Gonzales, filho de Leônidas Borges de Oliveira, os dois automóveis foram doados ao Museu Paulista meses depois de os três expedicionários voltarem ao Brasil.“ Lembro de nos anos 1980 ter ido ao museu e visto a assinatura do meu pai num documento de doação ao museu. E, juntamente com os carros, ele deve ter doado outras coisas.”
      O que aconteceu nos últimos anos, porém, é uma incógnita. Em nota assinada pela diretora, Solange Ferraz de Lima, o Museu Paulista informou que “não há registro em toda a documentação pesquisada até hoje de que os referidos veículos Ford T tenham pertencido ao acervo do Museu Paulista e nem mesmo que tenham sido expostos aqui”. “Apenas temos notícias por relatos orais de pessoas ligadas ao bairro do Ipiranga de que, em 1938, foram expostos temporariamente no museu trabalhos científicos e documentação histórica sobre uma ‘Expedição Automobilística Brasileira’, que percorreu de1928 a 1938 o trajeto que se planejava para uma Estrada Pan-Americana”, diz o texto.

Exposição.No acervo do Museu Paulista, há dois quadros sobre a expedição. O primeiro anuncia a inauguração de uma sala da Estrada Pan-Americana, “onde serão apresentados todos os trabalhos scientíficos da Expedição e a importante documentação da histórica viagem”. Traz o título “Expedição Automobilística Brasileira que traçou a grande estrada de rodagem”. Após mencionar os nomes dos três participantes, diz que eles,“numa verdadeira apoteose, foram os mensageiros da fraternidade brasileira aos povos do Continente Americano; e de lá trouxeram para o povo do Brasil a maior saudação e o maior abraço sincero de irmão e amigo”.
      O segundo cartaz emoldurado parece ser a apresentação do conteúdo da sala. Debaixo das datas “1928 – 1938”, explica: “Trabalho da Expedição Brasileira durante dez anos de viagem através das três Américas, cruzando 15 Repúblicas; cobiçados pelas féras e pelos índios selvagens; sofrendo os rigores do frio, do calor, da sêde e da fome; tudo para engrandecer o Brasil demonstrando o verdadeiro traçado da maior Rodovia do Mundo, ligando Rio de Janeiro com Nova York (26.000 kilometros). Os três expedicionários cruzaram selvas milenárias, rios fantásticos e caudalosos, assim como pântanos profundos e por quatro vezes a Cordilheira Real dos Andes, preparando o caminho com picareta e dynamite. Os três brasileiros demonstraram ao mundo a página mais gloriosa do Brasil e de seu povo e por isso foram delirantemente aplaudidos por todos os povos irmãos do Novo Continente e pelo grande povo de Norte-América.
‘Acordo verbal’. Responsável pelo Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla, a São Paulo Transporte(SPTrans) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Ford em exposição no local foi cedido à instituição da zona norte “entre1986 e 1987”, proveniente justamente do Museu Paulista, “em acordo verbal entre as partes”. Ele é hoje a única peça originalmente de transporte privado do museu de veículos públicos.
“Acho tudo isso uma tristeza, um descaso com a história. Meu pai fez questão de trazer o carro de volta ao Brasil, não quis vendê-lo para o Henry Ford colocar no museu. E tudo para quê? Para ele provavelmente ter sido roubado ou virado sucata.”

MODELO PERMITE IMPRIMIR EM 3D
● Na versão online, em infograficos.estadao.com.br/e/panamericana, é possível acessar um modelo que permite imprimir em 3D miniatura do Ford T. Ele foi feito a pedido do Estado por Daniel Huamani, da 3D Criar, e testado também no Garagem Fab Lab. A cópia custa a partir de R$ 75.

FOGO ARRASOU ACERVO DA AVENTURA
      Fardas militares, espada, foto de desfile de 7 de Setembro, registros da Estrada Pan-Americana. Tudo o que era importante Leônidas Borges de Oliveira guardava num armário de madeira no consulado brasileiro em Santa Cruz. No térreo, ficavam três salas destinadas aos serviços diplomáticos. A residência da família funcionava em cima.
      “O local era muito movimentado”, lembra o médico Erland de Oliveira Gonzales, filho de Oliveira.“Por lá passavam embaixadores, agregados, gente que ia pedir visto. O Brasil representava uma potência na região e meu pai era o Brasil em Santa Cruz.”
      Gonzales conta que Oliveira não falava muito sobre a aventura pelas Américas. “Tinha 15 anos quando ele faleceu. Lembro que, quando precisava estudar geografia, ele pegava o diário da expedição e dizia: ‘Você vai ver que está melhor que qualquer livro’. Mas não comentava muito. Ao voltar dos EUA, parece que ficou decepcionado pelo fato de a aventura não ter tido a repercussão que ele esperava. Então foi cumprir outra missão e a história caiu no esquecimento.”
      Segundo Gonzales, o expedicionário era uma “pessoa negociadora, calma, um bonvivant”. Morreu em 1965, aos 61 anos. O filho acha que foi do coração, porque era hipertenso. Três anos depois, em1968, ele veio para o Rio estudar Medicina, mesma carreira da mãe, Maria Buenaventura Gonzáles. Ela conheceu Oliveira no sul do México. Tempos antes, havia sonhado que a Virgem Maria juntava a mão dela à de um desconhecido. “Um dia, meu pai chegou ao hospital com malária. Quando ela o viu, reconheceu a pessoa do sonho. ” Depois que Gonzales deixou Santa Cruz, a mãe, a irmã e o cunhado começaram a presenciar fatos estranhos. Ouviam gritos, móveis sendo arrastados, batidas de dentro para fora do armário. Logo a casa ganhou fama de mal-assombrada. Numa noite, foram acordados por um grito. “Minha mãe era muito católica e dois bispos vieram benzer a casa. Foi então que mandaram pegar o armário com tudo o que tinha dentro, pôr no pátio da casa e atear fogo.” Foram destruídos pelas chamas não só as fardas de Oliveira como todos os mapas da expedição, notas sobre os povoados, assinaturas de pessoas que conheceu pelo caminho. Por sorte, sobrou o diário da viagem. Os barulhos, porém, continuaram. Depois que a família vendeu a casa, o novo dono a alugou para uma empresa. No dia seguinte, o vigia pediu demissão. Teclas de máquinas de escrever batiam sozinhas à noite.

“História da expedição teria de estar nas escolas, ser ensinada aos jovens”

ENCHENTE DESTRUIU FOTOS DE FAMÍLIA
      Olívia Camargo da Cruz tinha 14 anos quando conheceu Francisco Lopes da Cruz. Estava na janela de casa, em Guararema, quando o então chefe de almoxarifado da Companhia de Serviços de Engenharia passou. Trinta e dois anos mais velho, ele trabalhava nas obras da Variante do Parateí da Estrada de Ferro Central do Brasil. “Ele era um charme, bonitão, muito culto, um noivo e tanto”, lembra a senhora de 91 anos.
      Animada, ela conta que os dois namoraram cinco anos e viveram juntos até a morte do observador da Expedição Automobilística Brasileira, há 50 anos. Ironicamente, o homem que enfrentou uma década de viagem do Rio aos EUA morreu em Mogi das Cruzes na véspera do Natal de 1966, um dia após ser atropelado pela Kombi de uma granja. “Foi uma ironia do destino”, diz a filha Leonor Camargo da Cruz Ruiz, de 67 anos. “Meu pai que passou por tantos perigos durante a expedição foi morrer no meio da cidade, atropelado por um motorista que falam que estava bêbado. Foi muito difícil.”
      O tema da expedição surgia de vez em quando nas conversas da família.“Ele contava coisas pitorescas, de quando esteve nos EUA e conheceu o presidente Roosevelt”, lembra Olívia. Um dos casos mais curiosos foi quando Lopes da Cruz caiu numa tribo de índios no Panamá. “Ele contava que foi obrigado a casar com uma índia e ela era virgem”, diz, rindo.
      Leonor lembra que todos em Mogi achavam que as fantásticas histórias do pai eram inventadas. “Como eu, muita gente achava que era mentira. Ninguém tinha ideia da grandiosidade do que ele viveu. Só depois é que descobrimos mais detalhes e ficamos encantados.”
      Chamado de “capitão” por amigos, Lopes da Cruz terminou a vida como vigia. Em 23 de dezembro de 1966, estava de folga, mas resolveu fazer uma ronda por lojas e casas das quais tomava conta. Atropelado, faleceu um dia depois. Com aluguel para pagar e duas filhas para sustentar, Olívia, que nunca tinha trabalhado, passou a vender cosméticos e enxovais para sobreviver. As filhas anteciparam a entrada no mercado de trabalho. Viúva há 50 anos, ela tem, além das duas filhas, quatro netos, sete bisnetos e três trinetos. De memória invejável, só lamenta ter perdido fotos de seu casamento e da expedição do marido numa enchente há alguns anos. “Mudamos para uma casa em Mogi e eu não sabia que ali dava enchente. Quando descobrimos, estava com água até os joelhos. Nós tínhamos fotos tão bonitas, mas perdemos tudo nessa enchente.”

“Meu pai contava as histórias da viagem, mas, como eu, ninguém acreditava”





Votuporanga, 22/05/2017

Jornal O Estado de São Paulo - Domingo, 23 de abril de 2017 - Págs. H1, H2 e H3
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